Toda Saúde - Home

Hormônios: promessas e realidade

Fonte da texto: Hospital Albert Einstein

Hormônios sintéticos, hormônios bioidênticos, fitoesteroides... A diversidade de medicamentos nessa área pode fazer crer que vivemos uma revolução nas terapias de reposição/substituição hormonal. Isso não é verdade. Produtos novos ou formulações manipuladas batizadas com uma nomenclatura atraente ainda não fizeram o milagre que nos permitisse colher apenas os benefícios dos hormônios, sem riscos ou efeitos colaterais.

Os hormônios bioidênticos, por exemplo, nada mais são que substâncias sintéticas manipuladas que têm a mesma estrutura química dos hormônios sintéticos convencionais, que, por sua vez, são semelhantes aos produzidos no corpo humano. Os bioidênticos costumam ser apresentados como uma alternativa mais segura, mas não são. Eles agem pelos mesmos mecanismos biológicos e, portanto, oferecem riscos semelhantes ou até maiores, uma vez que não passam pelos mesmos controles e pesquisas dos hormônios sintéticos industrializados.

“Quando alguém diz que o hormônio é bioidêntico ao estrógeno, por exemplo, isso significa que ele é o próprio estrógeno. Pode ter sido modificada alguma coisa da estrutura molecular desse hormônio ou a forma de sintetizá-lo, mas ele precisa se comportar do ponto de vista biológico igual ao estrógeno. E se ele é idêntico em termos de ação, é idêntico em termos de riscos”, afirma o Dr. Rogério Silicani Ribeiro, endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

Ginecologista do Einstein, o Dr. Eduardo Zlotnik ressalta que, em qualquer situação, a prescrição de hormônios tem de ser cuidadosa. “Na menopausa, por exemplo, a reposição hormonal pode ser uma aliada no controle de sintomas como calores, insônia, formigamentos, queda da libido e instabilidade de humor, além de ajudar a reduzir o nível de colesterol e a prevenir a osteoporose”, diz ele. Contudo, alerta o médico, essa terapia exige uma abordagem individualizada. A recomendação deve levar em conta exames clínicos e histórico pessoal e familiar da paciente, e o acompanhamento médico tem de ser regular, pois, conforme pesquisas, o uso de hormônios pode aumentar o risco de alguns tipos de câncer e complicações cardiovasculares.

Os especialistas observam, ainda, que a terapia hormonal não é a única alternativa, nem caminho de uma só via no caso da menopausa. Se o problema da mulher é somente a perda de massa óssea (osteopenia e osteoporose), o médico pode administrar medicamentos específicos para isso. O mesmo vale para as que sofrem apenas com os calores. Já pacientes que apresentam um conjunto mais vasto de queixas – e baixo risco para o desenvolvimento de doenças – serão candidatas a usar hormônios, mas na menor dose possível e por um período restrito.

Por algum tempo, acreditou-se que os fitoesteroides, hormônios naturais extraídos de plantas, seriam uma opção. Como eles têm uma ação biológica mais branda, poderiam ser mais seguros que os hormônios industrializados ou manipulados. Mas, pela mesma razão, têm menor eficácia terapêutica, diminuindo seu espectro de aplicações. “Embora o fitoestrógeno seja benéfico na prevenção da perda de massa óssea, não deve ser usado como tratamento da osteoporose”, pontua o Dr. Rogério.

Além dos usos mais convencionais, as pessoas têm buscado os hormônios com outros objetivos, muitas vezes associados à busca da manutenção da beleza e do vigor da juventude. Exemplo disso é o uso de hormônios de crescimento, um dos recursos mais comuns das controversas terapias antienvelhecimento, atualmente proibidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O órgão, por meio da Resolução nº 1.999/2012, apresenta uma revisão de estudos científicos e conclui “pela inexistência de evidências científicas que justifiquem e validem a prescrição destas práticas.”

Ainda em relação a essa farmacopeia direcionada à busca de vitalidade e melhor qualidade de vida, merece destaque a adoção pelas mulheres da testosterona para ganhar massa muscular, melhorar a libido e a disposição. O hormônio masculino produz esses efeitos, sim, tanto nos homens como nas mulheres. Mas, embora a administração de testosterona seja indicada em várias situações, como a de pacientes idosos com perda de massa muscular, o uso exige cautela. “A relação da manutenção dos efeitos desejados versus efeitos colaterais nem sempre se sustenta por um tempo prolongado”, afirma o Dr. Eduardo Zlotnik. Ele destaca que a aplicação da testosterona nas mulheres, por exemplo, pode resultar no surgimento de pelos, engrossamento da voz e maior oleosidade da pele. Isso, além de riscos de aumento do colesterol ruim, alteração do triglicérides e lesões no fígado.

“É importante lembrar também que o organismo tem mecanismos que regulam a produção hormonal. Quando há reposição ou suplementação, ele inibe a produção natural. Assim, quando a administração do hormônio for suspensa, há o risco de, por algum tempo, esse hormônio estar em níveis baixos pela falta da produção natural”, diz o Dr. Rogério Silicani Ribeiro. Ele ressalta, ainda, a importância de uma correta investigação das causas dos sintomas dos pacientes. “Já vi homens que apresentavam diminuição na libido e estavam recebendo testosterona, quando a verdadeira causa do problema eram lesões na hipófise”, relata o endocrinologista.

A terapia hormonal tem inúmeras indicações e traz benefícios concretos aos pacientes. Mas não é uma panaceia. É para quem precisa, na menor dose possível e apenas pelo tempo necessário. Tudo isso sob recomendação e acompanhamento médico.